Por que meu amigo pode usar shorts e eu não?

Alunas do Colégio Anchieta, de Porto Alegre, fazem petição contra regras de vestuário

Vai ter shortinho sim
Foto: Reprodução


O Colégio Anchieta de Porto Alegre está enfrentando uma grande controvérsia nas redes sociais. A proibição da escola do uso de shorts por meninas, mesmo durante o verão, obrigou as alunas a uma atitude. As estudantes estão realizando um abaixo-assinado online, e em um texto maravilhoso, explicam todas as razões por que impedir meninas de se vestirem como querem é uma forma de machismo. Leia na íntegra:

"Nós, alunas do ensino fundamental e médio do Colégio Anchieta de Porto Alegre, fazemos uma exigência urgente à direção. Exigimos que a instituição deixe no passado o machismo, a objetificação e sexualização dos corpos das alunas; exigimos que deixe no passado a mentalidade de que cabe às mulheres a prevenção de assédios, abusos e estupros; exigimos que, ao invés de ditar o que as meninas podem vestir, ditem o respeito.

Regras de vestuário reforçam a ideia de que meninas tem que “se cobrir” porque garotos serão garotos; reforçam a ideia de que assediar é da natureza do homem e que é responsabilidade das mulheres evitar esse tipo de humilhação; reforçam a ideia de que as roupas de uma mulher definem seu respeito próprio e seu valor.

Ao invés de humilhar meninas por usar shorts em climas quentes, ensine estudantes e professores homens a não sexualizar partes normais do corpo feminino.  Nós somos adolescentes de 13-17 anos de idade. Se você está sexualizando o nosso corpo, você é o problema.

Quando você interrompe a aula de uma menina para forçá-la a mudar de roupa ou mandá-la pra casa por que o short dela é “muito curto”, você está dizendo que garantir que os meninos tenham um ambiente de aprendizagem livre de “distrações” é mais importante do que garantir a educação dela. Ao invés de humilhar meninas pelos seus corpos, ensinem os meninos que elas não são objetos sexuais.

 Ao invés de ensinar que a minha decência e o meu valor dependem do comprimento do meu short ou do tamanho do meu decote, ensine aos homens que eu sou a única responsável pela definição da minha decência e do meu valor. Ensine aos homens o respeito, desconstrua o pensamento de que a roupa de uma mulher decreta se ela é ou não merecedora de respeito.

O Colégio Anchieta diz ser um colégio que ensina a pensar e fazer o futuro, mas nós não vemos nada de futuro em suas aulas e suas políticas. Não discutimos temas atuais, fenômenos sociais; não aprendemos política; nunca ouvimos falar de feminismo, machismo, sexismo, racismo e xenofobia em sala de aula; não aprendemos sobre opressão de classe, gênero e raça; não nos falaram sobre o desastre da Vale/Samarco nem sobre as operações anticorrupção acontecendo no Brasil; não nos explicam sobre cotas para universidade; não nos ensinam a diferença entre opinião e discurso de ódio; não nos ensinam o mínimo para compreender e para viver em sociedade.

A prioridade é ensinar para o ENEM e vestibulares, entendemos. Mas a educação social e política não pode ser deixada de lado. É por meio dela que construiremos uma geração melhor que a anterior; é por meio dela que criaremos um mundo onde mulheres não serão julgadas e humilhadas pelas roupas que escolhem vestir, pela forma que tem ou por quantas pessoas já transaram; é por meio dela que acabaremos com a realidade de que, a cada 2 minutos, 5 mulheres são espancadas no Brasil e, a cada 11 minutos, 1 é estuprada; é por meio dela que criaremos um mundo onde cotistas não precisarão ouvir que “roubaram a vaga” de alguém que estudou a vida inteira em colégio particular; um mundo onde mães de crianças negras tenham certeza de que, no fim do dia, seus filhos voltarão pra casa; um mundo onde não perderemos mais vidas para a Guerra Às Drogas; onde mulheres não morrerão em clínicas clandestinas de aborto; onde a religião e a política não se misturarão; onde o capital não será mais importante do que a vida; onde os problemas de hoje serão solucionados.

Nós, alunas do ensino fundamental e médio do Colégio Anchieta, nos recusamos a obedecer a regras que reforçam e perpetuam o machismo, a cultura do estupro e slut shaming."

Esse texto deveria ser enviado a todos os diretores de escolas deste país, onde em muitos lugares o machismo não é impedido e ainda por cima é disseminado. Já está mais do que na hora de abrir os olhos, de perceber que os mesmos métodos não são o bastante, e que as mesmas agressões não vão mais ficar impunes. Vivemos numa sociedade que diz às mulheres para "se darem ao respeito", e para se cuidarem para não serem estupradas. Mas não dizemos aos meninos e aos homens que respeitem os seres humanos com igualdade, que tratem as mulheres da mesma forma que gostariam de ser tratados, mas sobretudo não ensinamos os homens a não estuprar.

A violência contra as mulheres é uma luta de todos os seres humanos. Nós mulheres somos a metade da população desse mundo, e nós trouxemos ao mundo a outra metade. O direito de usar um short no calor pode parecer algo fútil, perto da violência terrível do feminicídio, mas você precisa entender que os motivos são os mesmos. Os meninos que podem ficar "distraídos" olhando os corpos de suas colegas durante as aulas, são os mesmos que um dia vão passar cantadas nas mulheres da rua, que vão puxar o cabelo de uma menina na balada, que vão agredir uma namorada depois de uma briga, que vão matar a esposa por ciúmes. Se uma criança é ensinada desde pequena que uma mulher vale menos do que um homem, ele vai perpetrar essa mentira até que alguém lhe ensine o contrário, e é assim que o machismo sobrevive.

Nós mulheres, não somos coisas. Nenhuma de nós pertence a ninguém a não ser a nós mesmas, e como tais, temos direitos que viver como quisermos, usando as roupas que tivermos vontade. A sociedade não manda no meu corpo, nem no seu, amiga. O seu namorado, os seus pais, os seus empregadores, os seus professores: nenhum deles manda no teu corpo, e nenhum deles pode te dizer como agir. Se você acha que não precisa do feminismo, desculpa estourar sua bolha, mas você não sabe o que é o feminismo. Feminista é uma pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos. Lembra?

Você deve ter visto o caso que aconteceu aqui em Candelária nesta semana, mais um crime de feminicídio na nossa região. Iasmin mais uma vítima do machismo, de um ignorante que achava que as mulheres são coisas que tem donos. Se você se recusa a aceitar o feminismo em sua vida, se você se nega a lutar pela igualdade dos sexos, vai permitir que por mais tempo este tipo de crime aconteça. A mudança está um clique de distância, na leitura das verdades, e ajudando as nossas irmãs em Porto Alegre que só querem estudar usando roupas confortáveis.

Aos homens, digo apenas que não se acomodem com o patriarcado. Sim, ele está aí há muito tempo, tirando os nossos direitos, ceifando nossas liberdades, mas ele não vai durar pra sempre. Lembrem-se que vocês são iguais a nós, nem melhores e nem piores, e que as mulheres não se vestem para vocês, e nem estão no mundo para o seu divertimento.


PAOLA SEVERO

paola.severo@gaz.com.br