Por que precisamos falar sobre o estupro?

Caso de estupro coletivo contra adolescente no Rio de Janeiro iniciou debate, mas precisamos mais

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Você lê a notícia. Mas de alguma forma todos esses fatos colocados em palavras em uma matéria não fazem sentido. Poderia ser um defeito cognitivo repentino, que me impede de compreender o que está acontecendo. Mas não. Quisera eu. 

A mente se recusa a aceitar tamanha barbárie, mas no fim, nem a ficção poderia ser tão cruel.  Uma menina com apenas 16 anos, dopada, agredida, violada. Uma alma ferida, marcada por uma agressão covarde e brutal. Trinta culpados do crime.  Inúmeros culpados anônimos protegidos covardemente por uma tela de celular ou computador. Uma infinidade de agressores impunes. Outros tantos culpando, julgando e criticando a vítima com comentários ferinos.

Nos dias em que lemos notícias como a desta menina que foi vítima de um estupro coletivo no Rio de Janeiro, é impossível não chorar. Impossível não ficar um pouco de luto pela dor que essa irmã sofreu.  É uma questão de empatia, de humanidade, compartilhar esse sofrimento na esperança de que doa menos para ela, para que ela encontre a força para superar essa violência.

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Porque o estupro, não é sobre sexo. É sobre violência. É sobre eu não poder sair da faculdade e ir pra casa em segurança, porque 15 minutos na rua são perigosos. E claro, podem ser perigosos para os homens também, que podem ser assaltados e agredidos. Mas que não serão violentados.  Li uma vez que o maior medo dos homens que iam presos era do estupro. Vocês sabiam que esse é o medo de todas as mulheres, todos os dias? Andar de táxi, receber um entregador em casa, ir a uma festa, voltar pra casa. Sozinha, qualquer situação é de risco.

Porque nós aprendemos a conviver com as pequenas violências da sociedade, da convivência diária, mas é preciso que todos saibam que as coisas não estão certas da forma que são. É preciso educar os meninos a respeitar, deixar claro que as mulheres não são objetos, não são coisas, não são seres inanimados que existem para o bel prazer dos homens. O meu corpo me pertence, e você não tem direito a uma opinião a respeito dele.

Chega de desculpas, de apontar culpados e pedir a morte de agressores e justiça para um único caso quando a solução é uma mudança generalizada, pelo fim da cultura do estupro. Pelo fim da cultura que culpa a vítima, pela roupa, pela atitude, pela bebida, pelo ambiente, pelo batom vermelho.  A culpa nunca é da vítima. Se você já foi uma vítima, não tenha vergonha, a culpa não é sua, nunca foi sua não importam as circunstâncias.        

    

É hora de parar com a sexualização das menininhas. De parar com as piadas de teor machista. De parar com as cantadas na rua. Hora de sair de grupos que enviam fotos e vídeos de nudez, que expõem as vítimas e destroem suas vidas. É hora de aceitar que as mulheres e os homens são seres iguais, que merecem os mesmo direitos e oportunidades em todos os âmbitos.

Nesse momento de debate, se informe, e procure informar quem está perto de você. Espalhe a verdade, conscientize, lute. O caso desta semana é apenas um que ecoa, entre milhares que são silenciados. Você, mulher, se una a suas irmãs, pratique a sororidade, compreenda e apoie. Se você é homem, se posicione contra a violência, não se cale; se você permite que ela ocorra, você é cúmplice. Infelizmente não é o bastante que você não seja um estuprador, também é necessário que você se informe e informe outros contra o machismo e a violência.

Uma mulher é estuprada no Brasil a cada 11 minutos, segundo estatística recolhida pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Como apenas de 30% a 35% dos casos são registrados, é possível que a relação seja de um estupro a cada minuto. Vou repetir: UM ESTUPRO A CADA MINUTO. Ao todo, no Brasil, 47,6 mil mulheres foram estupradas em 2014, última estatística divulgada. A taxa de feminicídios no Brasil é quinta maior do mundo; são 5,6 mil mulheres assassinadas a cada ano pela simples razão de serem mulheres.

As causas dos estupros são os estupradores. E eles não são monstros, não são animais. São seres humanos, que convivem em sociedade, homens com estudo e sem estudo, que pertencem a todas as classes sociais e culturas. Homens que tem mães, irmãs, avós, tias, filhas e amigas. Mas isso não faz diferença para os milhares de agressores que foram ou não presos pelos seus crimes.  Não fez diferença para trinta deles nesta semana. Onde nenhum teve o mínimo de decência humana de parar a brutalidade de que estavam tomando parte.

É por isso que nós mulheres vivemos amedrontadas. O estuprador não tem cara. Pode estar ao seu lado no ônibus, no outro lado da rua, no trabalho ou na sala de aula. Qualquer homem que não se conhece pode ser um estuprador em potencial. E até os conhecidos, já que um número gigantesco de agressões ocorre dentro de casa.

Nós precisamos de igualdade de gênero, para que tenhamos segurança, respeito e humanidade. Nós precisamos do feminismo.  Precisamos que as vítimas sejam protegidas e não culpabilizadas. Precisamos que os agressores sejam punidos. Nós precisamos falar sobre o estupro para que ele termine.


PAOLA SEVERO

paola.severo@gaz.com.br