Não alimente o ego dos animais humanos, nem os macacos

Frequentadores do Parque da Gruta insistem em oferecer comida industrializada aos animais silvestres

Macacos do Parque da Gruta
Foto: Neca Magalhães Braz


Um tema que já foi debatido em Santa Cruz do Sul, pauta velha que já foi assunto na Gazeta do Sul muitas vezes.  Os frequentadores do Parque da Gruta seguem alimentando os animais silvestres, em especial os macacos. Apesar do absurdo, e da placa junto às taquareiras que avisa com algumas letras faltando que é "proibido alimentar os macacos" a situação ainda se repete.

Na última segunda-feira, 25, feriado na cidade, dezenas de famílias foram ao Parque da Gruta para passear, fazer churrasco, tomar chimarrão sob a sombra das árvores, e em geral conviver com um pouco de natureza que nos é negada no convívio diário da cidade. Eu, como todos eles, aproveitei as trilhas e o belo dia de sol para tirar fotos e passar uma tarde divertida com amigos. Ou assim eu esperava que seria.

No fim da tarde, nossa atenção foi capturada pela agitação dos visitantes e o característico som dos macacos. Logo um grupo de cerca de 20 animais passou a descer das copas mais altas, brincando nos galhos, e se reunindo sobretudo nas taquareiras. Local de repouso da malfadada - e inútil - placa.

Logo a brilhante ideia se apresentou, alguém teve coragem e tomou a frente com uma bolacha em punho e se aproximou de um dos animais. Cauteloso, o símio desceu e pegou o alimento da mão do humano. Para minha surpresa, a atitude foi recebida com risos e exclamações de admiração dos presentes, e serviu de exemplo para muitas pessoas repetirem a atitude imprópria. A despeito do meu choque, ninguém tentou impedir a ação, muito pelo contrário, me parecia que todos os presentes apoiavam e se inspiravam no ato de alimentar os animais silvestres. A placa, com suas palavras incompletas, permanecia em seu local de costume, sendo ineficaz e passando uma mensagem infrutífera.

Observadora impotente, vi em primeira mão mostras da ignorância e da falta de respeito, enquanto mais e mais mãos se estendiam oferecendo comida aos macacos do Parque da Gruta. Bolachas recheadas, biscoitos e salgadinhos removidos dos pacotes acabavam na boca dos animaizinhos em pouco tempo. Ao entender a dimensão do que acontecia ali, e pesando as consequências de atitudes que poderiam parecer inócuas, mas que eu sabia se tratar de uma grande violência, não pude impedir as lágrimas que se formaram em meus olhos.

Parada ali, pensei em fazer algo, impedir que a incivilidade proseguisse, mas quem sou eu para regrar a vida das outras pessoas? Para evitar um conflito e uma cena que seria recebida com certeza com animosidade, me limitei a observar, e sentir uma dor no coração por aquelas criaturas, que não sabiam no momento o mal que lhes estava sendo imposto. Pois o alimento industrializado que faz mal até aos seres humanos, tem efeitos devastadores nestes animais.

A grande maioria dos visitantes do parque naquele momento, se reunia em volta das taquareiras, e num circo de horrores explorava a presença dos animais. Pais enfiavam punhados de salgadinhos nas mãos das crianças e às empurravam em direção aos bichos, para que os alimentassem. Muitos tentavam tocar as costas e rabos dos macacos, e em troca recebiam sustos e expressões de fúria dos animais. A agressividade natural dos primatas poderia ter resultado em uma mordida em alguém, até mesmo em uma das crianças, mas no calor do momento ninguém pareceu pensar na possibilidade.

Todos de celular em punho registravam em vídeos e fotos o decaimento da raça humana, o momento em que o prazer momentâneo de interagir com o animal é mais importante do que seu bem estar futuro. Um ato de egoísmo como todos os que praticamos, já que os pobres e indefesos bichos conheceram muito mais sofrimento e desrespeito de nossa parte do que benfeitorias.

A atitude de alimentar os macacos no Parque da Gruta é errada de tantas formas que nem sei por onde começar. Esses animais não deveriam ter contato com os seres humanos, nós podemos passar doenças para eles, e eles para nós. Nosso alimento não é adequado para a alimentação deles, e até mesmo frutas e outros alimentos naturais não devem ser dados aos bichos, pois quando recebem comida dos humanos, isso os desencoraja a buscar comida por si mesmos.

Outra preocupação é com o exemplo para todas as crianças que presenciaram a cena. Que tipo de adultos resultarão de uma criação que acha aceitável machucar criaturas indefesas para divertimento das pessoas?

Para resolver o problema persistente seria necessário um tipo de conscientização quase impossível de praticar. Mas como medida imediata seria interessante que a Prefeitura Municipal instalasse placas adequadas no Parque, não apenas enfatizando que é proibido alimentar os animais, mas também explicando que o hábito é nocivo para os animais, podendo causar doenças graves e levar até mesmo à morte deles.

Com vergonha e lágrimas deixei o Parque da Gruta, me sentindo esgotada com os desmandos desta nossa raça humana e insuficiente para ajudar esses animais tão lindos. Ao leitor, a informação já é importante para evitar que a cena se repita, já que pessoas educadas não cometem atos ignorantes. Não dê comida aos macacos, e acima de tudo não alimente o ego dos animais humanos explorando essas criaturas.

Na ocasião citada no texto, a fotógrafa Neca Magalhães Braz registrou os macacos, e gentilmente cedeu as imagens que ilustram esta matéria.


PAOLA SEVERO

paola.severo@gaz.com.br