Um manifesto pelo direito de chorar em público

Num dos piores dias da minha vida, a gentileza de uma estranha me marcou pra sempre

Foto: Divulgação


Existe um certo tabu a respeito de chorar. Eu sei disso porque poucas vezes achei gente que chora tanto quanto eu. Acho que algumas pessoas pensam que indica fraqueza, ou demonstra vulnerabilidade demais. Nesse caso, eu, como chorona inveterada, gostaria de dizer algumas palavras neste manifesto em defesa dos pranteadores. 

Dia desses, estava eu esperando o ônibus no Centro. Na parada lotada, chamava a atenção uma moça em prantos. Enquanto o Agnes Kaempf de todos os dias não chegava,  mais e mais transeuntes olhavam a pobre da guria com pena, e até desprezo, e eu matutava comigo mesma. Existe uma lei que diz que você deve tratar uma pessoa que chora na rua como uma leprosa social? Claro que não. Quer dizer que o ser é descontrolado se dá uma choradinha de leve? Também não.

Nessas horas, eu lembro sempre daquela imagem do Tumblr – provavelmente feita por alguma adolescente sábia de 14 anos – e extensivamente compartilhada no Facebook: “Todo mundo que a gente encontrar na vida está enfrentando uma batalha da qual você não sabe nada a respeito”. E é verdade, existem tantos motivos para lacrimejar de tristeza quanto de alegria. Então, se você encontrar alguém chorando por aí, existe um pequeno manual de conduta (que acabei de criar): não fique encarando a pessoa que chora; só se aproxime se achar que pode ajudar e se o fizer, faça delicadamente; deixe a pessoa chorar. Era isso.

O que me lembra de um dos piores dias da minha vida, em que a gentileza de uma estranha me marcou pra sempre. Lá em 2015 eu estava de formatura marcada. Adorava minha turma, vestido escolhido, sede marcada, comes e bebes pagos, quando fico sabendo que, por uma dessas soturnidades da vida, eu não poderia me graduar. Seria obrigada a fazer mais um semestre, perderia tudo que já estava pago e pior: teria que dar a notícia pra minha família.

Saí da sala chorando e entrei no banheiro. Meia hora depois, eu ainda estava lá com a cara vermelha e lágrimas infinitas quando uma moça entrou. Ao notar o meu estado, ela perguntou gentilmente: “Eu sei que é difícil, mas eu posso te ajudar de alguma forma?”. Eu só balancei a cabeça numa negativa. Ela olhou pra baixo, talvez meio envergonhada de ter se intrometido no meu momento de bad. “Eu posso só te dar um abraço, então?”

Pode não parecer, mas o abraço que ganhei daquela guria fez a minha dor naquele momento ser um pouquinho menor. Não sei nada sobre ela, só lembro que tinha cabelo escuro e usava um moletom verde (de um curso da saúde, muito provavelmente), mas queria dizer a ela que aquele gesto foi um alento pra mim. Obrigada, mana. Que alguém também te conforte quando tu chorares.


PAOLA SEVERO

paola.severo@gaz.com.br